Pelo que me lembro, ao longo das minhas colunas, não expressei o que estou prestes a escrever: Célestin Freinet era um professor do ensino fundamental popular e acessível; ele escreveu e deu muitos conselhos a professores; não era um teórico da educação preso à sua mesa. Célestin não se preocupava em sistematizar sua pedagogia didaticamente.
À minha maneira, principalmente para estudantes, expliquei a educação freinetista como uma pedagogia comprometida com a conquista de uma série de princípios e objetivos na vida escolar: dignidade, confiança, cooperação, democracia, simplicidade, trabalho digno e prazeroso, livre expressão, responsabilidade, autonomia, respeito, felicidade, bom senso e tentativa e erro, entre outras diretrizes importantes. Nos parágrafos seguintes, abordarei outra característica da pedagogia freinetista, extraída de seu pensamento e obra: a pedagogia do risco, que se opõe claramente à complacência gerada pela pedagogia do eterno passado, a pedagogia da domesticação, identificada como "escolasticismo", ou educação bancária à maneira de Paulo Freire.
Dado como morto devido aos ferimentos sofridos na Primeira Guerra Mundial, que pressagiavam sua morte iminente, Freinet mostrou-se obstinado. Escolheu a vida, tanto a sua quanto a da escola, incluindo a de seus alunos. Nessa empreitada, praticamente incapaz de falar devido à voz debilitada, arriscou tudo em busca de um projeto de educação popular que desafiava todas as probabilidades. Freinet era sensível e, numa época em que prevalecia o contrário, dedicou-se a ouvir as crianças, dando-lhes voz. Haveria algo mais arriscado na escola do que encorajar as crianças a se expressarem num contexto mais amplo, permeado pela desconfiança na humanidade? As crianças, pouco a pouco, tornaram-se as verdadeiras mestras de Freinet, e ele, humildemente, arriscou-se a seguir sua orientação. As crianças traçaram o rumo da escola, ensinando a Freinet que elas também tinham coisas importantes a dizer, escrever e defender enquanto crianças, e o fizeram por meio da escrita livre.
Freinet foi corajoso. Ele arriscou o sagrado púlpito da sala de aula, juntamente com a autoridade formal do professor, e colocou a liberdade das crianças, e a sua própria, no centro da vida escolar. Criou textos livres e "livros da vida", trocou correspondências com outras escolas ao redor do mundo e fomentou uma profunda crítica social à opressão entre as crianças. Embora possa não parecer, Freinet, sem dizer explicitamente às crianças, as guiava implicitamente a trabalhar com entusiasmo em uma escola de risco. De alto risco. Os discípulos de Freinet desafiaram o agiota local (frustrando seus lucrativos negócios financeiros), o político desonesto e, em geral, todos os poderosos da região. Esses indivíduos, unidos por seus interesses mesquinhos, conseguiram expulsar Célestin da escola pública em um momento muito delicado. Há um episódio emblemático: Freinet, dentro da escola, acompanhado pelos alunos, com uma pistola na cintura, teve que defender o terreno da escola. Tal era a extensão do risco educacional que corriam.
Dado o exemplo de Freinet de assumir riscos educacionais, seria negligente da minha parte não encorajar meus alunos a correrem o risco, em sala de aula, de desafiar o escolasticismo com a prática de uma pedagogia baseada em Freinet. Às vezes avançamos, e às vezes precisamos parar antes de retomar a ascensão. Também levamos em consideração as outras características da pedagogia de Freinet mencionadas anteriormente. Os ensinamentos de Freinet foram, sem dúvida, fundamentais para moldar minha pesquisa e minhas publicações. A tentativa e o erro foram essenciais em minha jornada, e os riscos envolvidos são consideráveis (por exemplo, viajar inesperadamente do México para a Espanha sem qualquer informação prévia, em busca dos parentes de um antigo professor chamado Antonio García Martín para entrevistá-los, representou um alto risco. Graças à minha tentativa e erro e ao uso do bom senso, no dia seguinte à minha chegada a Madri, com a ajuda de um arquivista, as filhas do professor foram localizadas e o livro estava pronto para ser concluído com as informações de que eu precisava).
Falando em risco, o reitor da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Dr. Leonardo Lomelí Vanegas, afirma que sua reforma universitária já começou. Há quase três anos, em maio de 2023, comecei a insistir nesta coluna — e continuarei a fazê-lo — na necessidade urgente de a UNAM passar por uma transformação profunda, com um exame minucioso de tudo o que acontece dentro da instituição, sem tabus. É necessária uma reforma transparente para a nação, com a participação, nos auditórios, de estudantes, professores, pesquisadores, funcionários e representantes do governo.
Na UNAM, existem muitos problemas variados e crescentes; as condições objetivas para a transformação da universidade são claras e podem piorar. No entanto, faltam as disposições subjetivas para concretizá-la; a participação ativa dos membros da comunidade universitária para impulsionar a reforma de baixo para cima ainda está por se ver. Espero que esse momento chegue. Acredito que seja necessário que nós, da comunidade universitária, arrisquemos nosso tempo e esforço para analisar a situação atual da universidade e apresentar propostas de melhoria. Sei que isso pode levar um tempo considerável, mas devemos correr o risco e começar. O reitor tomou a iniciativa; ele está disposto a implementar uma reforma de cima para baixo com questões predeterminadas, enquanto outras questões fundamentais estão ausentes de sua agenda (as finanças da UNAM, por exemplo). Há até mesmo o tema tabu perene: a intocável Lei Orgânica, que completará 82 anos em alguns meses. Mesmo assim, continuo a lhe dar o benefício da dúvida.
Pós-escrito: Enquanto isso, continuo a refletir sobre a importância fundamental de rever os conceitos e práticas educacionais universitários para superar o escolasticismo, ou o modelo bancário de educação, em favor de uma educação libertadora. E também sobre a importância de abordar a questão da democracia universitária, começando pela sua aplicação prática pelos estudantes nas assembleias de classe, através da discussão e da busca de consenso sobre temas relevantes para eles.
Vamos elevar o nível da educação!
*Professor na UNAM
jimenezmyt@gmail.com
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