Por SILAS FIOROTTI*
A constante culpabilização da classe docente camufla os reais problemas estruturais do ensino e legitima a violência no ambiente escolar, exigindo uma mudança urgente de postura da sociedade
1.
“Que tal apoiarmos os professores da educação básica?” Esta pergunta parece um pouco sem sentido. Mas o que há atualmente no Brasil é um grande movimento contra os professores da educação básica, um movimento organizado para descredibilizar totalmente o trabalho dos professores. A gente precisa tomar cuidado para não alimentar e não endossar este movimento.
A ação de apoiar os professores no Brasil não é algo simples e corriqueiro. Geralmente os professores no Brasil são tomados como um problema e um empecilho que impede a melhora da nossa educação básica. Nós podemos encontrar, nos principais veículos de comunicação do país, diversos artigos de opinião afirmando categoricamente que os professores brasileiros são ruins, são mal-formados, são retrógrados, são doutrinadores, e utilizam métodos de ensino ultrapassados e ineficazes.
Alguns títulos de artigos e de matérias jornalísticas indicam que há uma intenção de culpar os professores pelas mazelas da educação brasileira. Entre os títulos, podemos citar: “A formação docente está na UTI”, “O Brasil precisa levar mais a sério a formação docente”, “Melhorar a formação dos professores”, “O desafio de criar modelo para formar uma geração de professores no Brasil”, “O dilema da formação docente a distância”, “Enade: EAD com nota baixa forma 53% dos professores”, e “Professores não sabem avaliar, revela pesquisa”.
É mais fácil simplesmente culpar uma categoria profissional que se encontra desprestigiada, do que propor um debate sobre a educação básica no Brasil com a devida profundidade. O círculo vicioso vai sendo alimentado também por alguns supostos especialistas em educação que, por sua vez, só estão interessados em vender alguma palestra motivacional, alguma “solução mágica” ou algum “pacote de inovação metodológica”.
A sociedade brasileira não vê algum resultado imediato através da educação básica e acaba nutrindo desprezo e aversão pelos professores, e os tais especialistas em educação também alimentam o círculo vicioso quando dizem insistentemente que os professores são mal-formados e utilizam métodos de ensino ultrapassados e ineficazes.
O resultado desse movimento contra os professores da educação básica é que a própria atuação dos professores passou a ser despida de qualquer autoridade, passou a ser amplamente questionada e considerada equivocada. Neste sentido, abre-se um caminho para os professores da educação básica serem desrespeitados pelos estudantes, pelas comunidades escolares, pelos gestores, pelos pais, pelas comunidades religiosas, pelos movimentos conservadores e até mesmo pelas autoridades públicas.
2.
Aqui podemos citar alguns títulos de matérias jornalísticas que, por sua vez, indicam o aumento do desrespeito e da violência em relação aos professores da educação básica: “Educação sob ataque: cresce a violência contra professores no Brasil”, “PM entra em escola após reclamação de pai por desenho de orixá”, “Fui ameaçada de morte pelo pai de um aluno de seis anos”, “Professor é atacado a facadas em escola municipal na Tijuca”, e “Professora desiste do cargo após ser mordida e chutada por alunos em escola pública no interior de SP”.
Na matéria assinada pela jornalista Andréia Peres, intitulada “Educação sob ataque: cresce a violência contra professores no Brasil” (04 ago. 2026), há um trecho sobre a opinião do professor Fernando de Araújo Penna, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a respeito do crescimento da violência contra os professores, a partir de 2010: “Penna considera como principais marcos históricos dessa violência a controvérsia do kit Escola sem Homofobia, em 2011, o ativismo religioso conservador para proibir abordagens da temática de gênero e sexualidade nas discussões sobre os planos nacional, estaduais e municipais de educação, a partir de 2014, e a onda de projetos Escola Sem Partido, entre 2014 e 2018” (Veja, 04 ago. 2026).
Eu lembro das minhas primeiras experiências em sala de aula. Os estudantes em algum momento reclamavam das aulas de outros professores, e eu adotei a postura neutra de simplesmente não comentar sobre outros professores com os meus estudantes. Normalmente os estudantes reclamam daqueles professores mais exigentes, que propõem diferentes atividades e o desenvolvimento de projetos.
Houve uma ocasião em que os estudantes reclamaram de mim para outro professor, e o meu colega me defendeu, disse que aquilo que eu estava pedindo era importante, disse que eu estava pensando no aprendizado e no desenvolvimento dos estudantes. A atitude do meu colega foi muito importante para a minha atuação naquele momento e também para eu refletir sobre a necessidade de apoiar e defender os outros professores.
É desejável que a equipe pedagógica esteja trabalhando de forma conjunta e se apoiando mutuamente. Neste sentido, quando os estudantes reclamam de algum professor, os outros professores podem impedir que as reclamações continuem, podem defender o colega, e falar para os estudantes que aquele professor provavelmente está sendo exigente porque deseja o bem e tem boas expectativas em relação aos estudantes. No mesmo sentido, é fundamental o apoio dos pais e das comunidades escolares.
Atualmente eu acho que é necessário defender até mesmo os professores que eu considero ruins. Pensando no cenário brasileiro em que os professores da educação básica estão completamente desprestigiados, não convém alimentar nenhum tipo de narrativa que culpabiliza os professores pela falta de qualidade da educação básica ou pelo baixo índice de aprendizagem dos estudantes.
Não é fácil levar a sério a pergunta inicial: “Que tal apoiarmos os professores da educação básica?” Outras questões também precisam ser colocadas e levadas em consideração.
Por que continuar publicando artigos de opinião e matérias jornalísticas que simplesmente culpabilizam os professores? Que tal considerarmos que os professores estão trabalhando sério? Que tal levarmos a sério as razões, as motivações e as queixas dos professores? Que tal lutarmos por melhores condições de trabalho e melhores salários para os professores? Que tal exigir que as autoridades públicas respeitem os professores? Estas questões sempre devem ser colocadas antes de qualquer crítica aos professores.
*Silas Fiorotti é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).
Referências
Fiorotti, S. “O grande movimento contra os professores no Brasil.” A Pátria, Funchal, 22 out. 2020.
Fiorotti, S. “Os policiais evangélicos, as crianças e os orixás nas escolas.” A Pátria, Funchal, 23 jan. 2026.
Peres, A. “Educação sob ataque: cresce a violência contra professores no Brasil.” Veja, São Paulo, 04 ago. 2026.
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