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Para além do convívio doméstico, a sensibilidade e o ronronar felino atuam como vetores de cura energética e acolhimento emocional
1.
Temos em casa um gato maravilhoso chamado Queirós. De vez em quando desaparecia e reaparecia 3-4 dias depois. Por esta razão, demos-lhe o nome de Queirós como referência àquela figura política que sumia e depois reaparecia. Servia aos interesses de uma conhecida família de políticos, todos homens, que construíram suas fortunas de forma obscura. O nosso Queirós é amoroso e possui especial energia curativa.
Se entrarmos no Google ou em outras plataformas de informação, encontraremos em todas elas a constatação da energia terapêutica dos gatos. Eles cumprem uma missão que vai além de seres animais de estimação. São portadores de energias sutis que se conectam com as energias humanas. Seu ronronar em distintas escalas é uma das formas como se acerca a ser humano, especialmente adoentado.
Jean-Yves Leloup, um psicanalista do profundo, de origem francesa, estudou especialmente a terapia dos animais, particularmente dos gatos, na história do Egito antigo. Chegou a criar um movimento que vem sob o nome Os terapeutas do deserto. O terapeuta não precisa de formação psicológica ou psiquiátrica acadêmica. Pode vir de outros saberes, mas que se propõe entrar em contato íntimo com a natureza e seus elementos de forma a viver uma verdadeira comunhão com eles.
É esse processo de comunhão que libera a irradiação das energias dos elementos e faz com que se torne curativo. Sem invalidar as terapias clássicas das várias escolas da psicologia e da psiquiatria. C. G. Jung tenha sido um dos poucos que valorizou essa energia natural, pois, segundo a fórmula de Albert Einstein, matéria e energia se equivalem. Werner Heisenberg, da mecânica quântica, sempre insistia que matéria não existe. Tudo é energia em distintos graus de densidade. E a energia, formando campos, sempre se difunde em todas as direções.
Tive a oportunidade de visitar algumas vezes uma mística, poeta e escritora Adriana Zarri (1919-2010), perto de Strambino no norte da Itália. Fazia dura crítica ao conservadorismo do Papa João Paulo II e de Bento XIV. Convivia com sua gatinha a Arcibalda, a quem dedicou seu último artigo.
Ela, como pude testemunhar pessoalmente, possuía uma relação afetuosa com a gata como de íntimos amigos. Aquilo que a nossa grande psicanalista junguiana Nise da Silveira descreveu em seu livro Gatos, a emoção de lidar (1998) foi confirmado pela escritora Adriana Zarri que escreveu: ”o gato tem a capacidade de captar o nosso estado de alma; se me vê chorando, logo vem lamber minhas lágrimas”.
Contam que a gata esteve junto dela enquanto expirava. Ao ver os amigos chegarem para o velório, se enrolava na cortina da sala para acolhe-los. Como se soubesse a hora, discretamente, pouco antes de fecharem o féretro, entrou discretamente na capela que havia no casarão em que Adriana Zarri seria velada.
Alguém, sabendo do amor da gatinha pela mística, pegou-a ao colo e a aproximou ao rosto dela. Fixou-a longamente e parecia que lacrimejava. Depois colocou-se debaixo do féretro e aí permaneceu em absoluta quietude.
2.
Voltemos ao nosso gatinho Queirós. Por razões que não cabe aqui referir, estive por certo tempo acamado. O Queirós ficava ao meu lado e às vezes por longo tempo sobre o meu peito. Dormia ao meu lado, colado ao meu corpo para poder sentir-lhe o calor.
De manhã vinha pressuroso e com sua patinha me saudava colocando-a sobre o cobertor. Ficava por longo tempo sobre a parte ferida do corpo como se quisesse passar sua energia curativa. Efetivamente a passava pois ouvia seu ronronar, a forma como os gatos e também as gatas se comunicam.
Estima-se que existem no mundo entre 600 milhões a 1 bilhão de gatos, de 250 raças diferentes. Geralmente vivem entre 15-20 anos.
Presume-se que o gato ancestral (Felis Catus) remonta há 15 milhões de anos. Entretanto sua domesticação começou na Babilônia por volta de 7500 (a.C). É um animal cosmopolita pois existe no mundo inteiro. Ele foi importante no neolítico quando surgiu a agricultura. Alimentos e frutas eram atacados por ratazanas e outros roedores. Aí a função dos gatos, sempre tidos como bons caçadores, se tornou decisiva, também nas casas nas quais havia tais roedores.
Os gatos por seu DNA possuem um cérebro bastante evoluído, o que os torna capazes de sentir emoções e, como consideramos, possuir uma irradiação curativa. São extremamente higiênicos, empenhando largo tempo no cuidado do pelo, utilizando a parte áspera da língua para remover sujeita e pó.
Por mais que praticamente por todo tempo tenham sido animais de estimação, difundiu-se, no entanto, no início da Idade Média, a crença de estarem associados às bruxas e ao demônio. Curiosamente foram excomungados, julgados em praça pública e queimados como se fazia com as bruxas. Graças a Deus, passado esse tempo sombrio, mesmo na Idade Média das universidades e dos estudos, foram reintroduzidos como animais de estimação.
Hoje gatos de toda as raças existem em muitas famílias. Alguns mais trabalhados artisticamente e até são levados pelas madames nos encontros sociais, talvez roubando mais carinho do que dedicado aos próprios filhos.
Por fim, cuidemos desses seres domésticos, amorosos como o Queirós, respeitando sua liberdade intrínseca, dando-lhes o alimento adequado sem as adições químicas que lhes são prejudiciais. Eles são companheiros em nossas sociedades que são parte da natureza, portadora de direitos. E por isso, os gatos comparecem como concidadãos, também sujeitos de direitos a serem respeitados.
*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres (Vozes) [https://amzn.to/3KHEa4L]
Referências
Jean-Yves Leloup & Leonardo Boff. Os terapeutas do deserto: De Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Dürckheim. Tradução: Pierre Weil. Petrópolis, Vozes, 2021, 176 págs. [https://link.amazon/B0ag9bTLl]
Nise da Silveira. Gatos, a emoção de lidar. Rio de Janeiro, editorial Léo Christiano, 1998. [https://link.amazon/B0daTrUMi]
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