Por JOSÉ ALCIMAR & MARCELO SERÁFICO*
A submissão da atividade docente a imperativos quantitativos favorece o solucionismo tecnológico em detrimento da reflexão pedagógica
1.
As universidades, de onde sai quase todo o conhecimento produzido no Brasil, embarcaram na balela da dita Inteligência artificial sem nenhuma reflexão preliminar e mínima sobre as implicações do aprendizado de máquina e seus efeitos sobre a propriedade intelectual, os direitos autorais, os impactos materiais (sociais e ambientais, sobretudo) decorrentes da implantação da infraestrutura dos data centers, a soberania política e, no cotidiano da educação, sobre questões pedagógicas simples como a da relação entre professores e estudantes.
Ao se autonomizar do criador e adquirir vida própria, a Inteligência artificial ganha estatuto de sujeito e converte em objetos – rebaixados ao nível de mediação – professores e estudantes.
Objetos submetidos a uma dupla mitologia, como sugere Kate Crawford: “o mito de que os sistemas não humanos (computadores ou cavalos[i]) são análogos à mente humana” e “o mito de que a inteligência é algo que existe de forma independente, como algo natural e separado das forças sociais, culturais, históricas e políticas”.[ii]
Tais mitos infectaram por décadas o pensamento das ciências da computação e cognitivas, segundo a engenheira Ellen Ullman, convertendo-se numa espécie de pecado original desses campos de conhecimento.[iii] Daí que, por vias tortas, o complexo desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, hoje, passados os tempos heroicos de Alan Turing, seja reduzido por quem as produz, as utiliza e por elas é utilizado ao dualismo cartesiano: afinal, a Inteligência artificial não passaria de uma inteligência incorpórea, livre de qualquer relação com o mundo material.[iv]
Sob o encanto da mitologia da Inteligência artificial, conceito e reflexão já não mais encontram abrigo no ensino e as universidades aderem por capitulação e entusiasmo, sem filtro cognitivo, às facilidades do feitiço digital. Wittgenstein atribuía à filosofia a tarefa básica de lutar contra os efeitos enfeitiçadores que formas de discurso exercem sobre o pensamento. O discurso da Inteligência artificial vai mais longe: mais do que enfeitiçar, torna ocioso, senão obsoleto, o ato de pensar. Afinal, pela Inteligência artificial, é possível existir sem pensar.
Causa, ou deveria causar, vergonha ou alguma preocupação o modo acachapado, alienado, passivo como professores e cientistas – docentes e pesquisadores (como talvez prefiram alguns) estão lidando com o admirável mundo novo pós-Huxley.
Há deles que preparam as aulas usando o aprendizado de máquina – termo técnico que o marketing das Big Techs batizou de existir sem pensar –, outros já tentam corrigir provas fazendo o mesmo e vários “escrevem” o que chamam de artigos com o prestimoso auxílio de quem lhes rouba a alma do ofício. Imbecilizados, muitos cavam a própria cova, pois ensinam a máquina a fazer o que deveriam fazer. Sob o inebriameto dos dispositivos digitais, seguem como povo marcado e feliz (diria Zé Ramalho) rumo ao matadouro, pois logo (e sem se dar conta) se tornarão prescindíveis.
2.
A Inteligência artificial opera sob um sistema lógico inexorável, funciona com eficiência programática e submete a intelligentsia aos limites de sua intensa, abrangente e avassaladora ignorantsia.
A essa altura da fase digital do capitalismo, de sua cada vez mais desinibida estrutura bélica, reconhecer que parte da intelligentsia não entendeu a natureza suicida dessa lógica implica pôr em causa todo o sistema de educação e ciência, que parece absolutamente funcionalizado, submetido à ordem do capital. O reino do algoritmo produz de forma serial a figura adorniana do semiculto: o que vive do cultivo de si mesmo sem si mesmo.
Estamos diante de uma tragédia não só anunciada como propagada e cultivada por suas vítimas, que hoje se julgam beneficiárias das máquinas que com elas aprendem. A alienação tomou os ossos de muitos! A redução do encéfalo gera consciências felizes!
Muitos tratam do assunto como se fosse igual à chegada do computador pessoal em nossas vidas. Um raciocínio compreensível, afinal, o trabalho se tornou um sistema regulado por métricas e metas cujo alcance é facilitado pelo uso de máquinas que aprenderam com pessoas.
Ou seja, a Inteligência artificial é um complemento do sistema que ajuda a atender às métricas e a dar conta das metas quantitativas utilizadas para a distribuição de distinção entre “cientistas”, com isso erigindo as hierarquias meritocráticas tão criticadas quanto apreciadas na ordem que impõe a competição entre desiguais como cláusula pétrea às vezes passível de compensações.
A Inteligência artificial, longe de ser um problema, aparece como uma solução para trabalhadores da educação e da ciência exaustos. O sistema todo, embora alienante e expropriador da autonomia cognitiva e dos diretos da inteligência, sempre oferece compensações. Solucionismo tecnológico foi como Evgeny Morozov qualificou a ideologia do Vale do Silício que, aliada ao neoliberalismo de Wall Street, tornaram-se os mantras da nova era digital. Em suma: a cada problema criado pela tecnologia, ela mesma fornecerá a solução.
Ora, a singularidade do simulacro dialético entre problemas e soluções tecnológicas, nesse caso, é que a origem e o destino de uns e outros é a mesma. Não estão em pauta as consequências da (pós-)modernidade digital, lembrando Anthony Giddens, para a Terra e os trabalhadores, ou seja, a maioria dos que a habitam. O que está em causa é transformar a solução para cada um dos problemas gerados pelas Big Techs e seus associados em um ponto de partida para novo ciclo de acumulação de capital.
Daí que, do ponto de vista dos trabalhadores – cientistas e educadores o são – há um quid mas não um quo na lógica do solucionismo, pois no fim da linha o sistema tende a expelir quem hoje se sente aliviado por encontrar uma forma de ajustar-se, ao invés de combater o que leva à exaustão. O conto de fadas solucionista não tem final feliz!
A Inteligência artificial é uma prova de que a miséria não significa ausência de meios. Quando apartados do reino dos fins, daquilo que ainda carrega dignidade, os meios podem encurtar o caminho da barbárie. Sob belas e atraentes vestes digitais a ignorância pode ocultar e dissimular seu desempenho criminoso.
Como escreve Goethe por meio dos sofrimentos do jovem Werther: é coisa triste a raça humana. Trabalha, trabalha, para sobreviver, mas se enche de medo diante da pouca liberdade que lhe resta, a ponto de buscar todos os meios para se livrar dela.
*José Alcimar é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
*Marcelo Seráfico é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Notas
[i] Crawford faz menção a Clever Hans, o cavalo-experimento de Wilhelm von Osten, ao qual este ensinou a resolver problemas de matemática, indicar a hora, identificar os dias do calendário etc., suscitando entusiasmado interesse científico à época, fins do século XIX. Cf. CRAWFORD, Kate. Atlas de Inteligencia Artificial: poder, política y costos planetarios. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2022.
[ii] Idem, pp. 23-24.
[iii] Idem, p. 27.
[iv] Idem, ibidem.
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