
Novo livro disseca projeto central da ultradireita: a escola cívico-militar. Por que sua base, o disciplinamento, bloqueia a descoberta do mundo. Como produz formação grosseira e esconde ocupação violenta dos territórios e consultorias lucrativas

Escola fardada, ideologia ou negócio?
Toda opressão, mundo afora, nasce de dois elementos: o medo e a mentira. Desde o início das civilizações, ao final do neolítico, quando agricultores temerosos de perderem a colheita ou animais por roubos de outras tribos, imaginárias ou não, resolveram criar uma guarda para proteger suas plantações e currais. Com medo do “Outro”, deslocaram alguns dos seus para serem guardiões da lavoura, dispensando-os do trabalho de pastoreio, arado, cultivo e colheita. Supunham que agindo assim impediriam o roubo por outras tribos e povos. O medo do outro fez nascer o guardião.
Logo o guardião tornou-se cobrador. E aqueles que deveriam servir como guardas a garantir segurança para a coletividade passaram a servir-se de suas comunidades. O que era partilha virou tributo (do latim “tributum”, “repartir na tribo”). O que antes seria uma retribuição em alimentos, virou imposto (de imposição). O tributo, privilégio. O privilégio, opressão.
O guerreiro, que supostamente deveria proteger a tribo, criou os tributos. O primeiro imposto do mundo foi inventado exatamente para pagar militar. E esse, logo em seguida, passou a ganhar mais que os demais. Assim se impõe uma vida de privilégios e medos. É da história, em todos os tempos e lugares. A lógica é a mesma: quem carrega a arma também carrega o mando e a cobrança. Basta olhar as comunidades comandadas por milícias e facções, milícias fardadas ou facções descamisadas, são faces da mesma moeda que se impõem por força militar.
Cinco mil anos se passaram e o truque não envelheceu. As Escolas Cívico-Militares reproduzem a mesma lógica imposta aos pri- meiros agricultores com as mãos calejadas e costas arcadas. Cria-se medo, fabrica-se desordem, semeia-se cizânia. E logo aparece o vendedor de ilusões, o disciplinador de aluguel, o dono do apito. Assim começam o aprisionamento, a exploração e a servidão.
Como naquela época, eles não protegem do inimigo, eles são o inimigo.
Reflitamos sobre a história recente do Brasil, acentuada na última década. Primeiro o discurso de ódio, o ataque às artes, à cultura e à ciência, o bombardeio contra professores e professoras. Os desrespeitos, invasões de escolas e universidades, as desqualificações, a vigilância persecutória. A farsa da “escola sem partido”; na verdade, o mais partidário e doutrinador de todos os projetos.
Com isso instalaram a mentira com o verniz da “neutralidade”, ordem e disciplina. Como se ordem e respeito fossem sinônimo de obediência cega e incapacidade de perguntar. É a pedagogia do medo a tentar domar a imaginação, do coturno no lugar do recreio. Vieram para doutrinar sob a ordem militar. E “papo” de disciplina, hierarquia e respeito teve o mesmo efeito do “papo” para proteger a lavoura dos “roubos” por outras tribos. Pareceu até bom, não é? Aos agricultores que se deixaram escravizar pelos irmãos que lhes dariam segurança, em um primeiro momento, pareceu que sim.
Passada a fase dos ataques de artilharia ideológica com bombas de descrédito ao professor, vieram com a “solução” das Escolas Cívico-Militares. Com o coturno nas escolas começam a domar o pensamento livre e a mandar na aula. Além do bônus de “dinheirinho” extra; bom dinheiro, por sinal.
Pode-se chamar de “guarda da plantação” ou “disciplinador da educação”, o termo que for, esse tipo de esperteza há de sempre, pronto para dar o bote. Prevalece impondo o medo, fazendo o povo baixar a cabeça e obedecer sem perguntar. É assim que fazem as pessoas pagarem o tributum sem reclamar.
Está na história. Só muda o nome do “esperto”: guerreiro, faraó, imperador, senhor feudal, burguês, milico, fascista, bufão… No fundo, mandriões que se travestem de vendedores de ilusões. Ora se impondo pela força, ora pela engambelação.
Os “valentes” colocavam as crianças para morrer na frente. Só depois é que atacavam. Com o sangue das crianças foi feita a glória dos chefes militares, do exército de Xerxes aos centuriões de Roma. Dizem que Escola Cívico-Militar é para colocar ordem, acabar com a bagunça. Mas a intenção é outra, querem mesmo é domar a cabeça do povo antes que os jovens aprendam a pensar por suas cabeças.
Escola Cívico-Militar também é um novo jeito que se inventa para tirar dinheiro da educação; como na época dos agricultores assustados, de há 5 mil anos. E não é pouco dinheiro. Quando um militar reformado vai trabalhar numa Escola Cívico-Militar ele dobra os vencimentos, recebe um complemento salarial em valor superior ao salário do professor, além da aposentadoria que já recebe. Isso sem ter qualificação pedagógica, sem qualquer preparo para trabalhar em escola.
Honestamente, reflitam sobre isso.
O bônus para a nova pedagogia da ordem? Dinheiro público migrando do magistério para o soldo, das escolas para os quartéis.Tudo isso via consultorias para comandantes e aposentadorias reforçada para a gente do chão da tropa. Um negócio tão lucrativo quanto opaco. Aos poucos, as Escolas Cívico-Militares estão virando um grande negócio para subtrair verbas da educação. Além do complemento na aposentadoria dos policiais militares designados para as escolas; outros, em negociata que vai passando despercebida, vendem consultoria para implantação e acompanhamento dessa nova “pedagogia”. Cobram por escola. E não é pouco. São muitas as empresas de consultoria cívico-militar para escolas, sabiam disso?
Consultorias criadas por militares da reserva; esses, de alta patente, porque o chão da escola é para cabos e sargentos. Daí vão expugnando escola a escola, prefeitura a prefeitura, governo estadual a governo estadual, e até mesmo estabelecimentos privados de ensino. Bem na tática militar de ocupação do território, palmo a palmo. Empresas nascidas do nada, criadas por militares da reserva. Um mercado inteiro parasitando o orçamento da educação.
Entre 2020 e 2022, segundo dados do Sistema Integrado de Orçamento e Planejamento (siop), o Ministério da Educação gastou 94 milhões de reais em gestão cívico-militar para apenas 216 unidades escolares no país. Afora o gasto de prefeituras e governos estaduais, que, por distribuído pelo país, fica difícil de contabilizar, mas que envolve soma muito maior. Percebam, não é o custo total de manutenção da atividade escolar, mas apenas a parte correspondente às despesas militares nessas unidades.
Consultores para Escolas Cívico-Militares, militares de alta patente, reformados ou não, cobram entre 400 mil, 600 mil, 700 mil reais por ano. E por escola! Exatamente. Afora o valor médio de 7 mil reais por mês no acréscimo no soldo de cada militar que estiver atuando na escola como bedel. Mais que a média salarial dos professores. Muito mais!
Com esse recurso daria para realizar muita coisa boa nas escolas; vocês não acham?
Esse é o dinheiro que falta para a manutenção das escolas, aparelhamento de laboratórios de ciências, aquisição de livros, contratação de bibliotecárias, psicólogas e assistentes sociais. Dinheiro que falta para melhorar a merenda, o salário dos professores. Em vez de os policiais darem proteção no entorno das escolas, nas ruas do bairro, beneficiando toda a comunidade, deram um jeito de pular muro adentro para trabalhar como bedel. Fica bem mais fácil, lucrativo e seguro.
Eles sabem que o “negócio” de Escola Cívico-Militar é inconstitucional, que fere a ldb, Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394/96). No rol de despesas e investimentos previstos pela ldb não cabe despesa militar. Em São Paulo, a Justiça suspendeu lei do governo do estado que instituía programa de Escolas Cívico-Militares por conta disso. O sindicato dos professores da rede estadual de ensino, a Apeoesp, entrou com Ação Direta de Constitucionalidade (Adin 7662) e teve o recurso acatado pelo Tribunal de Justiça. Mas como o negócio envolve tanta “grana” e poder, o governo do estado volta com seu projeto sinistro, pretendendo implantar Escolas Cívico-Militares na marra. Começa com cem, depois mais, sempre com a falsa argumentação de que a comunidade escolar foi ouvida e “escolheu” esse caminho.
Nada mais falso!
A ldb não prevê despesa militar. A Constituição não autoriza militares em funções de educação ou apoio escolar. Notem a esperteza. Eles não querem utilizar verba militar ou da segurança pública para esses trabalhos, querem é abocanhar a verba da educação, das crianças e dos jovens. Por isso a Justiça vive suspendendo esses programas; mas os governantes da direita (alguns que se dizem de “esquerda”, também) manipulam dados, inflam consultas públicas, mentem aos pais.
Não se trata da coexistência de dois modelos. Eles dizem que cabe aos militares “apenas” o regramento da disciplina das escolas. Mas o que está acontecendo, ao lado da imposição de plataformas e sistemas de ensino ou uso de Inteligência Artificial para preparação de aulas e correção de provas – outros grandes negócios a extraírem dinheiro da educação –, é a substituição progressiva de educadores por policiais-bedéis ou por máquinas. “Dinheirismo” fantasiado de política pública.
Educadores devem prestar concurso público e passar pela análise de formação e títulos acadêmicos. Policiais militares reformados, não. São despreparados para a função. Pior, selecionados “a dedo”, sem qualquer critério transparente ou de competência. Não há amparo constitucional nem formação pedagógica para policial-bedel. O que está acontecendo é desvio de função. É apropriação indevida de verbas da educação. E é algo que vai se impondo sem efetividade comprovada. Faz sentido?
O estrago que as Escolas Cívico-Militares estão produzindo na vida de educandos é muito grande, agora e no futuro. A experiência histórica do Golpe de 1964 deveria bastar. Mas a memória é curta, o desespero é grande, e a estupidez é infinita.
Se continuarmos assim, perderemos uma geração. Ou mais.
Daí meu apelo com este livreto-libelo em forma de manifesto poético.
Faço um apelo a quem ama o Brasil de verdade. Não o Brasil da patriotada entreguista e servil, mas o Brasil dos filhos deste nosso solo gentil. Um apelo a quem ama o ato de educar, a quem ama o futuro: não compactuem com o “golpe” das Escolas Cívico-Militares. Escola não é quartel. Escola é para educar!
Por isso o manifesto a seguir, um chamado à luta em forma de prosa poética, pelas professoras e professores, pela escola como território de sonho, cidadania e liberdade.
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