Nonato Menezes
Bonito seria uma lei para “obrigar” as escolas a terem em cada uma de suas salas um jarro com planta. Imagine uma planta numa sala de aula, como objeto de estudo e conhecimento; e sendo cultuada pela beleza de sua folhagem, floração e aparência do caule? Uma samambaia, uma orquídea ou um cacto sem espinho, para não parecer agressivo. Uma revolução, eu diria.
Primeiro porque toda planta expressa uma vida. Vida um tanto diferente da nossa, é verdade, por exemplo, as plantas não pensam. Mas, não pensar, pode ser compensado por não disputar poder, não ser violenta, nem exalar mau humor. A planta é bela e útil em si mesma, e só tem uma exigência: não dispensa cuidado.
Planta em sala de aula, assim como nas nossas moradas, além da beleza intrínseca e do cuidado primordial que precisa receber, sugere respeito inquestionável. Afinal, quem cuida, respeita. As carências que existem na maioria das nossas salas de aula, uma planta poderia suprir, sem esforço. Valores como paz, cuidado, beleza e singularidade, que são partes de um conjunto de atributos que só a natureza é capaz de abrolhar.
Da nobreza de seus atributos, a planta rebentaria como recurso didático e pedagógico numa sala de aula. O seu universo de encantos atiça curiosidades, evidencia estudos em Matemática, Química e Filosofia.
É de um sonho que viria minha satisfação, se estivesse a presenciar a professora de Língua Portuguesa, com olhar inebriado por uma Orquídea, recitar “... No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol, de céu e de lua...” a provar que naquela planta, assim como Manoel de Barros encontrou, pode ter o motivo para a poesia, para a literatura, para a arte.
Noutra sala, o professor de Matemática, inspirado pelo cacto sem espinhos, estaria a discorrer sobre sua tridimensionalidade, as formas geométricas das folhas, do caule, de uma possível flor e do seu peso como efeito da gravidade. Teria muito a dizer sobre o nosso mundo palpável e perceptível, muito dele ali, num cacto sem espinhos.
Da racionalidade do professor de Filosofia brotaria, creio, o idealismo platônico na vez de analisar uma samambaia, e discorreria sobre sua essência, que na palavra do filósofo grego é o que há de permanente, de singular na coisa. Ali está, então, a ideia de ser, aquela planta, uma samambaia: diferente, única, absoluta. Não estaria ali, também, a melhor oportunidade a se contemplar a IDEIA DE VERDADE? Momento mais que oportuno, a despeito de se parecer fora do contexto, mas na circunstância apropriada, com juízo a se contrapor às mentiras tantas vezes usadas como “verdades” nos palcos, nas tribunas, nos tribunais e diante dos prompts.
Assim, uma planta em sala de aula serviria como objeto de compreensão da vida e do mundo nas demais áreas do conhecimento, inclusive História, contrariando os que ainda defendem ser narrada apenas com seres humanos, espaço e tempo.
E as plantas, como alimento humano, não são contadas num estudo com método da História Total?
É certo que uma escola assim contaria o celular como recurso pedagógico e didático apropriado bem-vindo. Uma obra prima da criação humana, talvez uma das mais importantes da História como ferramenta a auxiliar em nossa comunicação. Por tudo isto ele nos leva a conferir inúmeras possibilidades como meio a ser usado para domínio dos conhecimentos. Logo, tão útil, assim como necessário, o celular também pode ser usado de maneira inadequada, dependendo exclusivamente de quem o usa e de como é usado.
Se levarmos em conta os “atributos” do celular, é injusto negar as possibilidades de seu uso como meio para domínio do conhecimento. Assim, como todas as ferramentas criadas para nosso benefício, ele também carece de critérios de uso como, por exemplo: É indispensável a atitude disciplinar de quem o manuseia. Sem disciplina de uso, o celular, tanto em sala de aula, na nossa morada ou em qualquer lugar pode se tornar um vício ou até mesmo servir de instrumento para ferir, matar ou, nesse caso, deturbar a consciência.
Mas o que fizeram nossas autoridades para evitar eventual mau uso dele em sala de aula? Simplesmente o proibiram. Viram no celular apenas a possibilidade de seu uso como perturbador de consciência e ou como objeto que gera indisciplina e atrapalha os relacionamentos. Não perceberam, ou não levaram em conta, o mesmo que cada um de nós percebe na utilidade da nossa faca de cozinha. A faca tem inúmeras utilidades. Serve para fatiar queijo, cortar legumes, descascar fruta, mas, também, pode ser, em certas circunstâncias propícias a dano, como o de ferir uma pessoa. Este uso, porém, não nos confere o direito, nem a necessidade de banir as facas de nossas cozinhas.
O que me pareceu justo para as autoridades banirem os celulares das salas de aula, possivelmente tenha sido a facilidade de criarem o instrumento legal, pois proibir é mais simples até do que pensar seriamente no que possa acarretar tal proibição. Afinal, toda sociedade autoritária, não necessariamente o governo, é forjada na proibição a pretexto de ser necessária, até indispensável para a organização da sociedade e assegurar o respeito mútuo.
Do outro lado, a escola deve entender a proibição apenas como mais uma medida disciplinar, somando-se à confusão que as instituições de ensino fazem com o próprio tema disciplina. Não é de ontem que nossas escolas entendem disciplina como “ficar quieto”, obedecer cegamente ao que é proposto, parecer bom ouvinte e ser escravo do relógio. Não veem disciplina como organização das atividades no tempo e no espaço. Preparo, aliás, que poderíamos conseguir também na escola, o que nos ensinaria a agir corretamente em nossas moradas, nos disciplinando por toda a vida. A proibição, neste caso, só tem sentido no ambiente escolar. Não nos acompanha na rua, não nos serve nas nossas moradas e é completamente esquecida nos ambientes de lazer.
Por fim, a proibição do celular nas salas de aula não veio para corrigir nada, ou para melhorar um indicador educacional sequer.
Nasceu apenas para atender aos desejos autoritários, já arraigados, daqueles que seguem ainda com sinais da escravidão e que cultivam ideias fixas sobre o ato de ensinar como sendo bem mais “confortável” com instrumentos de proibir atitudes. Que seja condão para assegurar o “poder” de professores e professoras feiamente comprometidos com o que se referiu, sabiamente, Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é crise; é projeto”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário